A relação do que não se deve comer é decretada por quem não está com fome.
Qualquer esfomeado encoberto por uma falsa fartura
Que num instante genuíno de saciedade plena, delibera:
Isso faz mal, aquilo que não pode, isto está errado ou não lhe cai bem...
Maldito faminto enrustido!
A fome existe, e quem a experiencia não tem como negá-la.
Não são poucas, mas diversas vezes ao dia
Aquela vontade louca de comer alguma coisa
Assola a mente,
Desorganiza a rotina,
Distrai os pensamentos.
É durante a fome que o bife sangrento se torna suculento ao vegetariano
Que a maçã podre apetece o mais cristão
O feijão apimentado se mostra refrescante ao seu próprio cu
É durante a fome, que todos os males se tornam a única salvação
Convergindo a remissão da própria sentença, própria ou alheia
Diante do sofrimento concernente ao apetite avassalador
Improvável não se render à despensa
E se fartar de tudo um pouco
Ou de um pouco do muito
Aliás, quanto é mais?
Com os lábios ainda sujos de comida, a digestão se inicia
A letargia domina o corpo, que amolece
O sangue se concentra no abdômen
A mente se aquieta no vazio de absoluta sacies
Até quando?
Até um momento seguinte
Quando a fome retorna na íntegra
Como se nunca houvesse comido
Diante do sofrimento recorrente concernente ao apetite avassalador
Improvável não se render à despensa
E se fartar de tudo um pouco
Tudo de novo, outra vez
Quando desta vez, a despensa está oca
No vazio, nada ressoa
Plena de vácuo, dispensa o torpor da comida
Interrompe o dispendioso prazer de comer
Até quando?
Enquanto a despensa se manter vazia
